Discurso ao provir

por Nuno A.

Muitos são aqueles que prevendo o fim associam o seu nome a algo maior quer eles próprios ou até mesmo que desejando a beleza se procuram elevar neles mesmos à glória.
Nada existe maior que eu.
Mas não é por isso que me ajoelharei a adorar a Deus, ou ao quinto império, ou à humanidade, em orgulho de me achar o verdadeiro.
Sou tudo o que há.
E assim sendo que reino?
que trono?
que súbditos?
que verdade?
Para quê representar perante mim o profeta, o amante, o louco?
Vaguear nestas terras que me pertencem disfarçado de romeiro em busca da donzela humilde ou do homem bom, da pedra filosofante, da água eterna?
Conquistar as cidades aos deuses que eu próprio entronei e destituí-los e novamente dar-lhes o poder e outra vez derrubá-los?
Ver o fim de tudo e escolher o caminho mais longo para regressar?
Perder-me na memória?
Aspirar ao esquecimento?
Adormecer com o vinho e ao dia ser ora o soberano ora o criador de porcos?
Maldizer-me no espelho e contra mim mesmo revoltar-me no mundo deitando fogo à realidade?
Escavar buracos na terra e enchê-los de homens segundo a minha condição?
Não.
Andarei por aí irredutivel como tudo quando pode ser, sem pousio firme ou instante de consolado entendimento.
E,
como estou,
desaparecer.
Se tudo é não existir.

7 comentários:

r. disse...

"Sou tudo o que há." PARTINDO DE UMA PREMISSA ERRADA todo o raciocínio que o precede está obviamente envolto em falácia. No entanto e dando aqui não o benefício da dúvida mas o da eucracia, e dizer que Se tudo é não existir. ou falta uma vírgula ou falta uma exposição de conteúdo elucidativa ou é divertimento para o gerinho moer o gerinho moer o gerinho moer

Nuno A. disse...

Determina a referida afirmação a lei do observador. E para provar a sua efectividade a tua reacção. Acabaste de dizer que a permissa está errada sem se quer te dignares a revelar a evidência do erro. E, contudo, mesmo que te dignasses, o único caso que ficaria esclarecido seria o da tua perspectiva à qual, mesmo desalicerçada, tu não consegues evitar a circunstância de pervalecer sobre tudo o que existe. Assim acontece com todos. Assim o disse.

r. disse...

Esperava logicamente não ser preciso demonstrar o porquê da premissa errada porque me pareceu por demais evidente. No entanto e se assim não o é: DIZES: "Sou tudo o que há" MAS na verdade não és. Porque existe mais para além de ti. Afirmar em termos absolutos dá nisto. Depois tens o "Nada existe maior que eu." E nesta eu até seria capaz de deixar passar não fosse dado o caso que qualquer ornitorrinco te suplanta e te transcende. Salvé o Ornito! Salvé o Ornito! Que é tudo quanto se pode ser! E ESTÁ ENTORNADO O QUE DEVE SER DEUS!!

Nuno A. disse...

(Diálogo no bastidor:

Nuno A. para o ornitorrinco, o seu alter-ego, e respectiva resposta

Vamos malhar no gajo?
Já devias ter malhado.)

Eu pensava que tu eras um daqueles raros que sabe distinguir percepção de natureza. É claro que este "Eu sou tudo o que há" se refere ao verbo, “eu sou tudo que faz acontecer”. O que é correcto de se afirmar uma vez que se está a falar no plano do observador. O raciocínio seguinte que dará a evidência de outras existências, esse sim passível de exame e crítica uma vez que engloba realidades que não comportamos (Pode alguém falar do que está fora de si?), já avalia, mas sempre em suposição, essas presenças extra-eu. Em todo o caso isso não interessa nada porque a lógica existe para servir o homem e não o contrário, a sua função é elevar o ser humano à altura do voo e não mantê-lo prisioneiro no ninho. Se tivesses lido o texto com vontade de aprender ou pelo menos de transcender e não simplesmente de encontrar nele mais uma oportunidade de demonstrar a tua razão e soberania talvez ele te tivesse servido de algo. É que, o que mais se pode retirar dos textos dos outros, não é ver se está bem ou se está mal, é ler na crença ingénua, degustar, subverter e dentro de nós mesmos achar novos ventos de libertar as nossas asas. O que o Nuno A. diz é lá com ele, o que me interessa é o que retiro para mim. Afinal como é que se pode evoluir procurando sempre corroborar a nossa ideia das coisas?

r. disse...

Tadinho amuou e libertou a inquietação da que mói quase sempre em silêncio. Ai refere-se ao verbo!! Claro assim faz todo o sentido. Que cabeça a minha que não associei logo ao que se queria expor. E não é que estivesse de difícil compreensão nem fosse preciso uma bíblia literária para compreender o acervo de referências que são expostas. Não, não, culpa minha, agora percebo. Tão claro como uma lágrima de mel na face de um jovem cisne malogrado, análogo ao sonho gedeano que filosofa como qualquer outro penedo na cárcere do molde que lhe dá origem.
Mas o é ler na crença ingénua, degustar, subverter e dentro de nós mesmos achar novos ventos de libertar as nossas asas. - Epaaa sério! Para quem é tudo o que há perdão faz acontecer, isto está tudo muito antagónico por um lado eu é que sou o verbo, por outro eles é que são fruto pretérito e tem de se os sorver pelo curso da aura que os habita. Ai ai ai que já estou a ficar irredutível por pouco pensei-me menos do que sou… uffa já passou… Salvé o Ornito! Salvé o Ornito!

Nuno A. disse...

Com esse tipo de argumentos já nem te consigo dar uma resposta que me seja gratificante. Mas ultrapassar os 100 comentários já é outra história. Que achas? Eu digo que não percebes nada de antagónicos e que o fruto pretérito é a maça(utilizar os outros como espelho não é cursar auras de nada). E tu vais por aí fora a ornitorrincar tudo.

r. disse...

Só dizendo tudo o que me passa pela cabeça sem limar pensamento, posso ter a certeza de ir encontrar o mestre saramago no pedestal além matéria.

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