Oração ao Século XXI

por Nuno A.

Ouça, senhor,
por acaso não tem lume que me empreste?
de qualquer forma agradeço, já estava a contar que não, bem vistas as coisas até seria ridículo que tivesse,
o senhor não fuma, pois não?
pois, mas sabe, uma pessoa tenta sempre,
é que eu já estava para aqui há um bom bocado pensando para mim naquela perspectiva, e se o azul deste céu… constrangido, e se é desta? na dúvida, se é que me entende, mas não o queria incomodar, aliás que, decidindo-me por pedir, acabei por ir contra os meus princípios,
não era propriamente uma emergência e ainda assim não resisti à curiosidade,
não sei se me percebe, não sei sequer se me está a ouvir, e nestas coisas tenho sempre medo de não falar a mesma língua,
fala-se, fala-se e depois vai-se a ver e é como se estivesse calado o tempo todo,
o senhor não tem medo que deixem de o ouvir? quero dizer, na pior das hipóteses que não entendam aquilo que diz e até o manipulem contra si, imagine que deixava uma mensagem que era depois constantemente reinterpretada para servir outras intenções que não as suas… eu sei que é uma situação peculiar, mas já pensou? enquanto estou aqui, por exemplo, à espera do autocarro, não tendo com que acender o cigarro, ponho-me a pensar como se costuma dizer na vida e, sem a orientação do tabaco saem-me coisas destas, pensamentos em bruto, nada que se esfume por aí, entende? de maneiras que tenho de usar de disciplina,
agora, repare, estou a falar consigo e não sei como seria nesta paragem de autocarro…
mas a culpa não é apenas minha, estes arquitectos por exemplo, levantam dois paus ao alto, cobrem com uma folha ondulada de ferro zincado, colocam um banco e está feito,
enfim, não se pode dizer que seja um prodígio de estética aristotélica, mas faz sentido,
por se tratar de uma instalação transitória que o próprio conceito compreenda um determinado desconforto que não permita ao cidadão esquecer que está apenas de passagem,
mas peço desculpa, já deve estar farto das minhas queixas, e a mais que não tem culpa alguma, um distinto tão pacato como o senhor, pode parecer-lhe um absurdo, pela ausência de intimidade e tudo mais, o que lhe vou dizer, mas a verdade é que gosto de falar consigo, sabe, é impressionante o que o seu silêncio fala e eu sou homem de dizer logo as coisas,
é que nesta vida não há tempo para cigarros, compreende? hoje estamos aqui, amanhã… quem sabe?
depois chega-se atrasado um minuto e perde-se o comboio, o autocarro, a hora de entrada no trabalho, a assiduidade, a margem de manobra, os intervalos, a hora de saída, o toque da escola, chega-se atrasado para recolher os miúdos,
e pode ser que eles nos agradeçam o tempo extra porque estão interessados numa catraia da quarta classe,
mas também pode acontecer vem os pais todos menos o meu,
e as mães responsáveis não admitem este tipo de deslizes, o que as mães não gostam as mulheres não suportam e o homem à noite porque foi mau pai à tarde está tramado na cama,
e sente-se um animal, uma besta que não quer chegar tarde à escola para pegar os miúdos porque à noite não aguenta sem mulher,
é assim que elas nos querem fazer sentir, mas será isso a sentença do que somos?
também faz parte, claro, e daí a perversão disto tudo se é que me entende…
colocando de lado o pudor,
afinal eu estou aqui para ser franco consigo,
de maneiras que lhe digo que é esse o trunfo delas, a capacidade que têm, transformando-se num objecto, de nos fazer sentir animais perante as crianças, quero dizer… eu nem sequer tenho filhos,
mas toda a gente sabe que reside neles a seriedade deste mundo,
e então as mulheres, porque são as portadoras da virgindade, também se acham na posse do destino da dignidade humana,
o senhor entende isto, eu sinto que entende tudo, e deve perceber também que muita gente prefira ser objecto, um simples instrumento que cumpre a sua função, útil ou inútil, mas no entanto livre de vícios, de fraquezas, imoralidades,
eu, porém, afirmo, aqui, diante de si, sem qualquer tipo de orgulho mesquinho, que prefiro mil vezes ser o animal, e quando estou lá no fundo, que no caso dos homens como eu costuma ser o auge,
dou-lhe a conhecer este aspecto da minha profunda intimidade porque adivinho que já o conhece,
não me sinto sujo, nem sequer depois um farrapo de alma humana lembrando a bandeira de espírito que poderia ter sido,
sabe, em dias que anda o meu pensamento menos capaz mas infinitamente mais lúcido dou por mim a dizer,
já deve ter ouvido muita coisa parecida e se é perspectiva que o ofende, peço que me perdoe,
que o único trunfo do homem casado é a traição,
sim, estou a falar do adultério,
eu seu sei que é uma posição degradante, triste, mas, excluindo a força física, que hoje é uma vantagem vergonhosa, acaba por ser essa imoralidade o único poder do homem,
não me espantam portanto as tradições poligâmicas e o que lhe posso dizer acerca delas resume-se a uma frase,
veja bem quantas esposas não precisam certos indivíduos de contrair, depreende-se que sábios, de forma a reunir em si poder suficiente para se cumprirem o tipo homem que os seus costumes preconizam,
no entanto, não posso deixar de sentir pena por aqueles maridos que, não se encontrando protegidos por estes e outros costumes, se vêm obrigados, entre aspas, talvez até mais por falta de criatividade que outra coisa, a pular a cerca, se é que me entende,
não querem ser animais, pelo menos não em casa, é compreensível…
por isso fazem o trabalhinho fora, e desta forma já podem, poderiam caso as esposas tivessem sentido de humor, chegar a casa e dizer, hoje sou homem, deixei a besta lá fora,
e seria assim que se encontrando em sinceridade de se abandonar à admirável providência feminina poderiam agir nos tempos certos, as crianças, a casa, o trabalho, a família, a cama, a paixão, o arrebatamento, o amor, o futuro, o sonho, as viagens, o estatuto, o respeito, enfim, todas essas coisas que apenas as mulheres se encontram em posição de comprar e que proporcionam por assim dizer a dignidade humana,
é claro que elas preferem o homem, mas também não admitem perder o domínio sobre a besta,
espero não lhe estar a maçar com estes assuntos, afinal são considerações simples, pensamentos humildes, insignificantes, para não lhes chamar outra coisa…
mas não é todos os dias que se tem oportunidade de falar com uma entidade como o senhor,
desgraçado daquele que não a aproveita, para mais que eu tenho, quero dizer, não aqui, mas numa gaveta em casa, a recomendação escrita, como se fosse receita medicamentosa, por mão de um doutor inscrito na ordem e portanto autorizado a exercer a sua arte, que aponta dever eu procurar desenvolver com interlocutores em quem confio conversas profundas, isto é, que rocem a minha intimidade, está a ver?
por conseguinte, enquanto espero o autocarro não achei por mal, dando-me conta da sua disponibilidade, fazer-lhe confidente, estou à vontade porque não parece nada que seja um daqueles que faz fretes, estou certo?
bom, de qualquer forma, para concluir isto e porque não gosto de me alongar muito nos pensamentos, chega-me apenas dizer que as mulheres vão acabar aquilo que os negros começaram, e é por isso que eu ainda não casei,
mas por agora o que mais me ataca o juízo é esse autocarro que nunca mais vem, não é que não esteja grato por este tempo aqui consigo, mas veja que passam carros, motas, bicicletes, carrinhas, cadeiras de rodas, triciclos, aviões, navios, pássaros comboios, moscas, formigas, diligências, carroças, tartarugas, patins, skates, esquis, pranchas, balões de ar quente, teleféricos, elevadores, foguetões, papamóveis, elefantes, camelos, huskies siberianos, trotinetes, carrinhos de rolamentos, crias de javali, camiões do lixo, tanques, refugiados, tractores, ambulâncias, procissões funerárias, desfiles de carnaval, canoas, vigílias, manadas de gnus, manifestações, cardumes de sardinha, cometas, presuntos voadores, galinhas com dentes, porcas que torcem o rabo, paradas militares, greves, filarmónicas, cortejos, andores, unidades móveis de combate a incêndios, limousines, galeras, parapentes, helicópteros, séquitos reais, comemorações da independência, sinfonias, legiões, cúrias romanas, protestos contra o preço do leite, jubileus, bodas de prata, homenagens, testemunhas do apocalipse, vagabundos, correctores da bolsa, jangadas, filósofos distraídos, sacas de supermercado,
e nem sinal do autocarro para o trabalho,
sou-lhe sincero, começo a acreditar que não vem, pode ter tido os seus inesperados, não digo que não, ele há imprevistos, é contas para pagar, retenção de líquidos, não sabemos até se aconteceu de ficar empanado em alguma subida, motores gripados é o que não falta por aí,
em todo o caso se o dever dele é fazer carreira, o nosso é esperar, pelo que de nada nos serve pormo-nos para aqui a pensar que ele não vem,
connosco é o estarmos aqui, se ele vem ou não, isso não é da nossa conta,
demora?
para isso é que está aqui este banco, a gente senta-se, cruza a perna, saca do tabaco, olha em volta à procura de lume e se não houver coloca o cigarro atrás da orelha, e entrelaça os dedos como se não tivesse nada para dizer, e esta é a única lucidez ao alcance do homem que não tem dinheiro para um táxi, de resto, se tivesse, também não o vou negar, nem sequer estava aqui a falar consigo, ainda que isto se possa vir a transformar em mais que uma conversa de circunstância e transcenda até os pressupostos da sua génese e enfim acabe eu por faltar ao trabalho para ficar a dialogar consigo, como se esse meu compromisso passasse a ser o autocarro para atingir o objectivo de prosseguir com esta prosa,
desculpe, eu tenho partido do princípio que à minha semelhança também o senhor espera o autocarro, mas posso estar equivocado, de facto vem agora à lembrança de que há uns bons minutos chuviscava e tanto quanto me é dado a supor até pode ter vindo somente abrigar-se, entenda que não me cabe a mim avaliar o motivo, não me diz respeito, se preferir até posso fazer de conta que o senhor nunca esteve aqui, de qualquer forma tenho o hábito de falar alto, já ninguém estranharia,
bom, ainda ontem… e até não sei se o senhor foi um daqueles que me ouviu, em todo o caso no fim disto um homem apenas pede que não lhe julguem a vida toda à conta de um episódio destes, ou, pelo contrário, sendo a questão precisamente o inverso, que não o condenem pela escassez destes momentos,
lembra-se daquele maltrapilho que passou por aqui há pouco? Esteve aqui comigo no outro dia e eu, que até nem sou destas coisas, vou-lhe confessar, falou mal do senhor quanto pôde, e não é o único, teve coragem, o bandido, mesmo não o conhecendo, de resto, posso-lhe assegurar, assim como ele há muita gente, e, em certa medida, imagino, para si, até deve ser melhor que não dizerem nada,
sabe, é que quem não é falado é esquecido, e isso é uma coisa que aposto o senhor não quer, arrepia-se só de eu falar,
compreendo, é deveras uma realidade assustadora, eu falo por mim, não tenho qualquer curiosidade com o dia em que me vou conhecer, aliás, já que falamos disso, nem sequer é do meu interesse que chegue o autocarro,
que se atrase pois, que tenha um furo, que seja mandado parar pela polícia,
mas à conta disto não me julgue um covarde, um homem deve ter a noção das suas limitações e, de mais a mais, eu estou a falar consigo, não estou?
acredite em mim quando lhe digo que caso se desse a circunstância de o senhor se encontrar a votos para a câmara, o ministério, a presidência, pode estar seguro que eu exerceria o meu poder democrático de um sobre nove biliões para o beneficiar e só não digo que seria um dos primeiros porque, a medir pela pontualidade do autocarro, talvez até já nem chegasse a tempo de ser um dos últimos,
fora isso também não vejo que mais possa fazer, somos, eu e eles, cada vez mais dispensáveis, sendo esse aliás o grande paradoxo da demografia, quantos mais e na consequência mais poderosos juntos, menos indispensáveis e fracos como indivíduos, ao ponto de podermos colocar como hipótese o facto da humanidade se encontrar cada vez mais diluída, não sei se me entende,
o raciocínio é o mesmo que os antigos faziam em relação ao sangue, mas aqui
trata-se da alma, o que só vem confirmar as profecias que por aí crescem como cogumelos, isto está cada vez pior, não é o que se tem dito? mas, caramba! eu não estou aqui para me queixar, pelo menos com nada que não diga respeito ao autocarro, contudo, já que aqui estou, pergunto-lhe, concorda com isto, quero dizer, com os pessimistas, ainda que o pessimismo de muitos mais não seja que um cepticismo ressentido?
não me leve a mal nisto que lhe vou dizer, mas o senhor é um diplomata de gema, consigo não ganha ninguém e fica toda a gente a ganhar, quer-me parecer que tem a capacidade de fazer sobressair nos outros a abnegação,
estou aqui à espera do autocarro há muito tempo e era capaz de o deixar passar à frente, mesmo desconhecendo a sua urgência, de certa forma sinto que ficaria a ganhar, e preste atenção nisto que lhe vou dizer, mesmo que o senhor daqui fosse para casa sentar-se no sofá ver futebol e beber cerveja à custa de uma esposa que lhe trata da casa, da comida, da roupa, da descendência e dos apetites carnais,
a sua vida íntima é consigo e não preciso que ela me carimbe seja o que for, se é que me entende, agora que cumpra o seu papel isso é outra história,
mas repare como eu hoje estou taralhão, a intrometer-me assim na vida dos outros, e como tem que fazer isto e devem fazer aquilo e assim é correcto e assado não está bem,
taralhão, sem dúvida, hoje era bom que o autocarro viesse,
pergunto-me quais serão as desculpas para o atraso, mas nunca tive o privilégio de ouvir uma que seja, depois deste tempo todo o que se pode dizer?
olha, eu vinha mesmo que não esperasses?
é que é preciso ter estômago, chegar passado este tempo todo, que eu imagino seja uma vida, e simplesmente dizer é agora, podia ser antes, mas também depois, e ao resto somos nós que prestamos contas, que esquecemos de pagar as contas, olhar pela saúde, falar aos amigos, cumprir as resoluções do ano novo,
quantas vezes já disse aquela coisa de menino não vou adiar mais, e tendo em conta o que se tem visto, sei lá se não é precisamente nessa altura que o autocarro se decide a vir, não, o mais prudente é não ter na agenda nada definitivo, nada que para além de exercer efeito nas tarefas e na sua divisão pelos dias, influa os próprios dias, os atrase e muito menos os adiante, para além do mais, assim ,estamos a falar do historicismo sociológico e o senhor já sabe onde isto vai dar, sabe, que é como quem diz há pouco vi-o chegar daquele lado, que é para onde nós vamos, e por isso é que digo, de resto, por vezes, eu próprio também sou homem para acreditar no futuro,
ainda há dias, estava aqui à espera do autocarro e passou uma mulher… como é que eu lhe hei-de explicar? muito sugestiva e dei por mim a pensar, eu que nem sequer sou de fazer planos, que bela mulher para o meu primeiro divórcio!
para todos os efeitos deve-se ter, por defeito, o raciocino completo, não acha?
Já que todos os dias aparecem novos messias, e eu… será que toda a gente assume a mesma perspectiva na altura de meter a cruz no boletim?
pode ser tal e qual, ou então, para que não me acusem de machismo,
não o senhor que eu sei não sofre dessa costela, mas os poetas,
que bela viúva ela dará um dia!
não sei, alguns fumadores, pelo menos, já dizem que se é para gastar dinheiro que ao menos seja numa coisa que não contribua para que ele venha a fazer falta,
a determinada altura conheci mesmo um individuo que dizia,
eu, se aposto na lotaria, é para avolumar o prémio do vencedor,
era um barbeiro, o meu barbeiro a determinada altura, e talvez devesse interceder por ele agora que aqui estou,
eu não rezo para ser atendido, mas para crescer o suplício deste oceano,
é a lua que enfeitiça o lobo, ou é o lobo que encanta a lua?
não interessa, se eu contar ninguém vai acreditar que o autocarro tenha demorado tanto, ao ponto de falar consigo, vão pensar que estou doente e de especial forma que a doença é o leito da preguiça, e, apesar destas afirmações não passarem de frases constituídas por palavras cuja semântica visa apenas me ofender, não deixam de ser verdade, o bom de tudo isto é que, agora que o admiti, aqueles sujeitos que nos escutavam mais não têm que meter a viola no saco e irem-se embora,
carne! aqui? não,
de formas que aproveitando este momento em que estamos sós, e antes que o senhor se resolva a ir também, isto é, que chegue a sua hora, porque neste aspecto não possuo ilusões, o destino dos que esperam pelo autocarro é até ficarem sós,
para lhe dizer que anda por aí um sujeito, vendedor ambulante, nos ajuntamentos populares, porque consiste nesse tipo de artigos o seu negócio, martelinhos para o São João, cachecóis para o futebol, balões para os arrais,
e quando se apagam as luzes,
quando toda a gente na expectativa levanta os olhos às estrelas esperando o fogo de artifício, enamorados, de mãos dadas, os de companhia com a abstracção do seu que outro corpo lhes proporciona, os de consciência sós na angústia da missão que lhes foi condenada de fazer verdadeira a ilusão dos outros,
quando antes um momento que vividos na intimidade será no seu tempo próprio a cada um tal o travo da morte e tudo em redor é, um segundo que seja o silêncio, engolir em seco, aqueles que acham que lhes será feita alguma pergunta, se vê esse tal sujeito de óculos arrastando pelo descampado um saco plástico, preto, cheio, arrasta, com o saco encostado à anca, procurando vender, busca com o seu estrabismo, brinquedos, alguém, enquanto toda a gente espera do céu, que queira fazer feliz, sem desistir, uma criança,
e eu não sei o que o senhor poderá fazer em relação a isto, neste período da história notável em que o principal desafio é saber como a transmissão de um sistema sincronizado de um determinado conteúdo informativo difundido por todas as redes de distribuição televisiva pode modificar a tendência natural das coisas?
como combater a sabedoria da massificação que resiste a deixar-se levar por assuntos com um grau não desprezável de efectividade? e até que ponto o terrorismo é o sistema mais eficaz de garantir a necessária instabilidade nos mercados financeiros, e o conflito militar oficial o meio mais sólido de tamponamento da harmonia que se pretende estabelecer,
deverá ser isso, veja, porque, de uma certa perspectiva, não geral, admito que somente particular, para todos os efeitos apenas minha, única e exclusivamente, mas que ainda assim não é o mesmo que dizer que é da minha total responsabilidade, foi a este grau de civilização que chegamos após, ninguém sabe ao certo, milhares de anos de sociedades organizadas, repito, pelo menos visto daqui, deste promontório em que me encontro, que nem sequer é muito elevado, mais propriamente permitindo-me observar ali, até à padaria da esquina se há gente a entrar ou não, mas que não me dá alcance de saber o que se passa para lá da curva, com o autocarro, por exemplo, ou no trabalho, com o meu patrão, com o meu regresso a casa, com o sol-pôr e, para além, numa volatilidade comovida, a forma de como a luz se perde pela expansão do universo,
e o senhor, na sua posição por mim atribuída, de meu eterno julgador, terá a legitimidade de me colocar a questão,
acha que isso terá existência para além do segundo que o pensou?
à qual, sem dúvida, eu responderei, porque, enfim, a mim pertencendo o livre arbítrio de lhe reconhecer a autoridade em mim reside o orgulho de lhe determinar os limites, com outra pergunta,
poderá o segundo contar alguma coisa para além da sua própria definição?
mas não coloquemos o carro à frente dos bois, desde que me conheço por gente que me dizem,
não te precipites, e eu não faço tenção de deitar tudo a perder, não é ter receio de ficar sem emprego, eu que nem sequer tenho trabalho, mas as coisas possuem um tempo certo, um tempo em que já tive uma ocupação, um tempo em que já tive mulher, em que tive filhos, um tempo em que tinha motivos para não chegar atrasado e um relógio onde se marcava tudo isso,
depois não sei, será que existem horas para nada disso? uma história para a ausência de acontecimentos, ou, melhor, acontecimentos abandonados pela história, à partes em que reside a sua própria explicação?
porque são os obstáculos que ela contorna que cumprem a sua agradável sinuosidade, agora bem vê que estou aqui e de tudo quero no essencial fazer,
sim, esqueça tudo o resto,
uma única pergunta,
se é este o mais profundo desejo no homem, aquele que justifica a humanidade, que dever possui o indivíduo em que ele é trucidado pelo mundo, perante a vida?
porque às vezes parece-me que é o sofrimento que paga a factura da felicidade, e nesse caso julgo estarmos perante duas disposições vergonhosas, como a coca cola sem açúcar, por exemplo,
palavras que oprimem o homem,
mas o que é ser feliz? o que é ser amado?
percebe?
se for a ver até pode consistir em irmos à rua passear o cão e sermos saudados pela vizinha do terceiro direito, entrar num supermercado para comprar uma cerveja e encontrarmos um colega de escola que não víamos desda primária,
e o que é que isso tem que ver com um cão, um apartamento e a vizinha? com um jogo de futebol, a instrução neste país e a Daniela do terceiro ano que era giríssima e que ao que parece está casada com um empresário?
hoje qual é a moda da felicidade? viajar, as exposições, os concertos, sexta à noite, ir de helicóptero para o trabalho porque, santa paciência! os transportes públicos hoje em dia são uma desgraça, para mais aqueles que vão para onde não há trabalho algum, pois que, ao fim e ao cabo, como resultado de que ando para aqui a dizer, raios me partam! se a felicidade não é cinco por cento o sorriso do dono da tabacaria e os restantes noventa e cinco vaidade, a inveja provocada nos outros à conta do que se possui, e que, provavelmente por desígnio do mistério da selecção natural, é a forma mais simples de granjear a admiração dos demais, conseguir uma aproximação, não importa o motivo, se isso nos permitir estar juntos, contudo não está a ver ninguém aqui ao meu lado, pois não? adiante, para além destas duas parcelas, em circunstâncias vulgares, ainda poderia guardar dois por cento para o provir, mas há momentos em que um homem não deve ter medo de assumir o seu todo pela sua parte mais barulhenta,
não me interprete mal, não é minha intenção afirmar que isto não tem salvação, não se trata disso, no entanto não posso esquecer que, para todos os efeitos, estou aqui à espera,
não restam quaisquer dúvidas, não passa disso, sem um porquê, uma explicação, nada, aliás que é precisamente por esse motivo que fizeram as paragens, se se soubesse para onde vamos fazia-se esse término e estava acabado não se pensava mais no assunto, agora assim, com indivíduos como eu, que mais se podia fazer?
falando com propriedade eu estou aqui porque de resto também não existem alternativas, ou talvez existam, não sei, já não sei dizer,
está a ver ali aquele cartaz de publicidade? consegue ler o que está lá escrito?
falar com certeza da verdade é fazê-la mais pequena do que o homem, e nada do que é mais pequeno que o homem o pode salvar,
mas, vê? talvez seja isto da humanidade, esta religião das palavras, que no fundo é o culto da morte,
queremos porque queremos, com todas as nossas forças, servindo-nos de todos os meios, a matemática, a dialéctica, a ironia, ao nosso alcance, matá-la, talvez de tédio, e dizemos a todas as estrelas,
vejam, eu amo! eu aspiro à liberdade! eu acredito para além deste corpo!
e eu sei, e eu, e isto que deve estar no fim, eu, porque a mim me encarregaram de, isto, de acabar com, veja! as palavras com elas mesmas, e portanto que isto deve, digo, estar perto do fim, neste momento
e agora que o fim chegar,
como vai ser?
arrumar as trouxas! o que temos para levar, que vejo nestas mãos?
mas há ali um horizonte, veja uma nuvem que desprendida das outras viaja mais ligeira, voltar? de algum lado partimos!
voltar e dizer que falhamos, que nada se achou.
O que viemos procurar
aqueles que nos receberem saberão dizer

2 comentários:

r. disse...

Talvez conseguisses com metade do texto manter o mesmo conteúdo e não dispersar tanto a atenção do leitor.

O início foi genial. Pensei mesmo que vinha aí reverência à obra. Mas tem partes que não trazem uma mais-valia à história. E atrevo-me a dizer que um final à altura do início é que era.

Gostei da brincadeira. Algo novo, despertou-me a curiosidade nas primeiras linhas, até perder-me no desenvolvo do autocarro que não chegou.

E já agora. Pensei mesmo que era uma miúda a falar. Aquele início estava bem rosa. Depois ele bebe um trago metafísico e é velo patinar discurso.

Nuno A. disse...

A única parte interessante do início seria a metáfora do lume, mas como não teve seguimento perdeu-se a dimensão helenicobíblica dos tempos modernos, que era o meu objectivo primeiro, o que me levou a arrancar. A dimensão do texto não é grande, nem pequena, simplesmente a capacidade não deu para mais.O fim, sim, é o mais interessante, mas tem um mal, é o fim. De resto, falha tudo na medida em que não mantem o mesmo sentimento orientador ao longo do texto.

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