O último dos pulhicas

por Nuno A.


“Trata-se de um assunto tão melindroso que não existe, em todo o ramal da literária história, notícia ou sequer suspeita do seu obscuro caso.”
Anónimo

E, depois de uma noite submersa pelas brumas erguidas do vale, os primeiros fluxos matinais vieram revelar a silhueta há muito desejada para o relevo do horizonte, dando afinal substância às escrituras que vaticinam quatro dias e quatro noites para o achado. Mas o espaço cronológico ocorrido desde a nossa partida da Torre Branca até à minha chegada aos confins do mundo, não o sei, ninguém o saberá limitar. E terão sido vários anos, ainda que a mim me pareça ontem o dia – se é que nisto se pode falar em dias – o tempo em que abalamos os quatro pelas veredas deste universo enleados numa fantasia. Digo fantasia – entenda-se e não se faça disso alarde maior que o necessário – porque neste mundo apenas se pode denominar fantasia à crença de que existem respostas concretas às mais profundas ânsias do homem.
“A criação está terminada, não são bem-vindos os adoradores do Portaluz”, é a inscrição que preside ao arco triunfal da Torre Branca, contudo, apenas vários enganos volvidos principiei a entender a advertência destas palavras. E – devo ser prático – para todos os efeitos era esse o nosso caso: um punhado de jovens do qual se podia afirmar, sem cair em excessos, idealista. Ora, ao contrário do geralmente se suspeita ou se tem como certo, o maior crime do idealismo não reside no sonho mas na sua obsessão em se cumprir real, isto é, absoluto, acabado. Pois ninguém duvide de que consiste um facto: a nós, que partimos naquela remota manhã em busca da Cidade Perdida, não importavam subterfúgios, lenitivos, redenções. Seria então um “glória ou morte”. Seria, poderia ter sido… não fossem porém os meandros da viajem.
Durante o percurso foram largos os obstáculos vencidos, mas somente chegado ao fim me é prestado o legítimo necessário a fazer deles conhecimento.

E se indispensável se entende antes de tudo mais serem os antecedentes para que do resto se possa obter sentido, fica por aqui descrito, não para que na leitura do incrédulo se obtenha confiança porquanto do crente se ache alguma luz.
As misteriosas circunstâncias que levaram à reunião dos quatro, insondáveis, viajam ainda sobre as águas do Atlântico e permanecem espuma ao escrutínio dos deuses, no entanto cumpre aqui considerar a sua mais que providente ocorrência para efeitos do que as procedeu.
Feiticeiro, Soprano, Saladino e Indígena, assim consistia a quadriga de que se tem vindo a tratar e, muito embora possa ser confundida a priori com qualquer outro quarteto, bastará um breve glimpso da narração que se segue para desfazer toda a predisposta leviandade.
Do primeiro basta dizer que se trata do mais auspicioso guerreio do mundo virtual; autor das primícias do reino, dispõe do ceptro na mão. Do segundo, que se identifica com o autor destas linhas, pede a modéstia que se diga apenas o essencial. Procedendo à direita, é o primeiro cavaleiro do reino. Aquele de que muitos aspiram o escolhido empunha o sabre do arcanjo. Do terceiro, vindo das ancestrais civilizações de leste, de quem se murmura lhe haverem os deuses concedido a língua do oráculo, será ainda exígua consideração afirmar que consiste num mestre da perdida arte do raciocínio. A este foi-lhe concedida a guarda da pedra filosofante. Do quarto, por fim, reportando-se-lhe a capacidade de se constituir como qualquer um dos restantes três, e nenhum deles, nada mais se pode afirmar que ocorre inesperadamente como a força mais obscura do reino, ele o portador do elixir eterno. Juntos, os quatro, eram eles mesmos os elementos integrantes do espírito pulhica, a luz do reino.

Certo dia encontravam-se pois os quatro nas quotidianas explorações das suas capacidades em desafios empenhados quando por um sopro do acaso descobriram o potencial do cavalo branco estrategicamente colocado na posição f7, nessa precisa altura, ainda assombrados com a descoberta, foram interrompidos pela Voz que sem os elucidar do motivo os enviou na derradeira missão da descoberta da Cidade Perdida. E assim se deu início à Odisseia pulhica, ou para ser mais correcto, à Pulhiceia.

Soterrados até ao pescoço pelo lodo dos grandes pântanos há mais de uma semana principiamos a achar repouso no estertor ácido do ressentimento. E foi quando, se preparando já os espíritos para abandonar o cárcere dos nossos arcabouços, pudemos escutar o mel das memórias adormecidas, que demos fé do engano a que havíamos sido conduzidos pelo orgulho. De facto desprezando os atalhos por entendermos vergonhosas as facilidades e ignorando os conselhos ancestrais como de simples rancores tardios se tratassem, confiamos somente na inocência da nossa moral, o que nos levaria, levou, a inevitáveis abismos.
Foi então o primeiro de nós dizer, não vamos conseguir, que logo o pensamento sombrio nos dominando já as entranhas desceu sobre nós para daí não deixar mais. No seguimento, um por um, chamando ao caso uma necessidade de carácter prático e pessoal, nos fomos pois retirando por alguns instantes da companhia do grupo e, não obstante os receios que nos levaram, todos voltamos depois da reflexão com o semblante de quem havia chegado a uma circunstância definitiva. Para que fosse retomado o plenário muitos corvos teriam de chamar da profundeza das suas nuvens tempestuosas e só com a chegada da aurora se voltaria a ouvir qualquer palavra. Foi por aí que um de nós rosnou, juntos não nos sabemos capazes, separados, ficarão pelo menos as nossas hipóteses multiplicadas.
As trouxas já se encontravam feitas de véspera e, escolhidos os caminhos que rapidamente nos apartariam, cada um se deixou levar pelo sopro do seu espírito.

Vencer por si próprio.
Auferindo da claridade de um ego desimpedido avista-se mais nítida a distância exterior mas não raramente se fica obstruído nas brumas da intimidade. O caminho que principiamos a percorrer os quatro passou então da geografia do mundo para a topografia dos sentimentos e as dificuldades que a cada um de nós se iriam impor diziam pois, mais que a um relevo rochoso, respeito às próprias ambições internas. A mim, de quem por acaso haviam saído as audaciosas palavras, sobreviria o caminho das rosas acídias.
Abandonando definitivamente os pântanos segui pelo leito seco de um rio que me surgiu por indicação de um farrapo vermelho preso num arbusto e por esse carreiro de seixos brancos continuei até ele se transformar num humilde trilho, depois numa rua ladrilhada e enfim numa avenida de luz que inesperadamente acabaria por morrer num pequeno roseiral. Assim que me deparei com o exíguo jardim dispus-me assombrado por verificar que o poderia atravessar em menos de uma passada, mas logo que me empenhei fui rapidamente desenganado. Era certo que depois de o cruzar estaria no atalho que me pouparia uma vida de caminho, mas para que pudesse a sua existência ser caminhada era necessário que primeiro fosse a sua essência penetrada, tarefa que me ocupou durante anos e que mesmo agora não tenho confiança de ter alcançado uma vez que o engano do odor soporífero se manifesta precisamente na ilusão da vitória. Fui pois, por vários anos, envolvido pelas mais saborosas fantasias e idílicos deslumbramentos, e se ao início ainda foi insuficiente a falta de consequência depois acabou esta por se transformar no mais apetecível repouso. Um dia, no entanto, ergui-me do dourado berço que me embalava e decidi que iria encontrar a cidade perdida não para glória do descobrimento contudo por essa vitória se revelar afinal a única esperança de voltar a encontrar os meus companheiros de peregrinação.
O jardim deixou-me passar.

Assim que cruzei os portões da cidade dirigi-me para o palácio do trono e exigi saber se já outros intrépidos descobridores haviam alcançado tal feito. Foi-me dito que era eu o primeiro e que apenas um tinha permissão para entrar. Ao início exaltei-me de jubilo por ter sido o escolhido mas depois, olhando o horizonte, o meu semblante iluminou-se dos primeiros raios de sol e nesse calor lúcido percebi que não estavam perdidos, que simplesmente cada um deles havia encontrado a sua cidade. Cada um vitorioso no seu empenhamento, de facto sós, todos havíamos sido derrotados. O sol nasceu então completo no seu esplendor e eu petrificado por tal visão já não fui a tempo de verter sequer uma lágrima.

2 comentários:

r. disse...

A linha do destino ainda está no começo.

Nuno A. disse...

A linha do destino é um início contínuo.

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